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Meu amigo não chegou na hora marcada. Telefonou dizendo que estava num velório. Chegou atrasado, sorridente. E me contou que fora ao velório que lhe viera aquela felicidade. Pensei logo que o morto deveria ser um inimigo. Não era. Um tio, muito querido, pessoa doce, 82 anos. E ele me contou a história de um amor.

Enquanto falava, meus pensamentos saltavam. Primeiro, lembrei-me do amor do Fiorentino Ariza e da Firmina Dazza. Depois foi o amor de T. S. Eliot e Valerie. Todos eles amores de velhice.

Amor de mocidade é bonito, mas não é de espantar. Jovem tem mesmo é de se apaixonar. Romeu e Julieta é aquilo que todo mundo considera normal. Mas o amor na velhice é um espanto, pois nos revela que o coração não envelhece jamais. Pode até morrer, mas morre jovem. "O amor retribuído sempre rejuvenesce", dizia Eliot no vigor da sua paixão, aos 70 anos de idade.

Está lá no Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Márquez. Quem não leu está perdendo uma experiência única de felicidade.

A história que meu amigo contou era parecida com a do Fiorentino e da Firmina. Só que a espera foi muito mais. Amor de adolescência interrompido - cada um seguindo o seu caminho, diferentes, outros amores, famílias. Mas o tempo não consegue apagar. A psicanálise acredita que no inconsciente não há tempo. Somos eternamente jovens. E, de repente, já no crepúsculo, as árvores que todos julgavam secas começam a soltar brotos, florescerem.

Casam-se - ele com 80 anos, ela com 76 - e vão morar longe, longe dos olhos dos que não suportariam o amor na velhice. E ele, aos 81 anos, voltou a estudar violino! Divina loucura ! E reaprendeu as antigas palavras de amor e dizia, realista, que, se Deus lhe concedesse viver com ela apenas dois anos, estaria muito feliz. Não ganhou dois. Mas teve um... E eu fiquei pensando que esse um ano pode ter sido semelhante àquelas experiências raras que a gente tem e que fazem brotar, do fundo da alma, aquele grito de exultação, à la Zorba: "Valeu a pena o Universo ter sido criado, só por causa desse momento!"

E foi o mesmo que aconteceu com o T. S. Eliot, que só encontrou o seu amor aos 68 anos, e aos 70 dizia que, antes do casamento, estava ficando velho.

Mas agora se sentia mais jovem do que quando tinha 60.

O amor tem esse poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário. O que envelhece não é o tempo. É a rotina, o enfado, a incapacidade de se comover ante o sorriso de uma mulher ou de um homem. Mas será incapacidade mesmo? Ou não será outra coisa: que a sociedade inteira ensina aos seus velhos que o tempo do amor já passou, que o preço de serem amados por seus filhos e netos é a renúncia aos seus sonhos de amor.

Compreendi a felicidade do meu amigo. E também fiquei feliz. Aquele velório foi como o acorde que se toca ao fim de uma sonata: a culminância da felicidade. Interessante que, como regra, o movimento final das sonatas é um allegro. Para trás os adágios lamentosos! A conclusão deve ser um orgasmo de alegria. E, se eu pudesse, acrescentaria aos textos sagrados, nos lugares onde os profetas têm visões da felicidade messiânica, esta outra visão que eu acho, até o próprio Deus aprovaria com um sorriso:

"E os velhos ficarão apaixonados de novo".






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