©Sonia Soares©



Eu vou deixar que morra em mim
o desejo de amar
os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar,
senão a mágoa de me veres
eternamente exausto.
No entanto, a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida.
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto,
e em minha voz, a tua voz.
Não te quero ter,
porque em meu ser
tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados,
para que eu possa levar uma gota
de orvalho nesta terra amaldiçoada,
que ficou sobre minha carne
como uma nódoa do passado.
E eu deixarei.
Tu irás e encostarás
a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos,
e tu desabrocharas para a madrugada.
Mas tu não saberás
que quem te colheu fui eu.
Porque eu fui o grande íntimo da noite,
porque eu encostei a minha face
na face da noite,
e ouvi a sua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram
os dedos da névoa suspensos no espaço,
e eu trouxe até mim, a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Mas eu te possuirei mais que ninguém,
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
dos céus, das aves, das estrelas,
serão a tua voz ausente,
a tua voz presente,
a tua voz serenizada.


(Vinicius de Moraes)





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