©Sonia Soares©



Estava na vida cuidando das flores e samambaias do meu jardim, olhando os dias nascerem e morrerem, me encantando com o sol e a lua... Estava na vida ... vivia. Estava na vida vivendo pedaços de mim importantes.

Amiga, sempre dispunha de tempo e afeto para os amigos. Mãe, sentia saudades da filha distante, gozava da esperança de poder sonhar sonhos com meu filho que voltara, ajudava meu filho mais velho a acreditar e realizar o que pretendia.

Cidadã, preocupava-me com a responsabilidade penal daqueles que praticam crimes hediondos e se escudam na menoridade ou na loucura.

Dona de casa, cuidava de preparar a casa para as festas de fim de ano.

Amante dos animais, cuidava das vacinas, remédios anti-pulgas, rações, carinhos para nossos queridos cães.

Estava na vida não vivendo pedaço importante de mim. Estava na vida escrevendo sobre amor, sexo, tesão, fantasias sexuais, orgasmo, desejos... Estava na vida teorizando um pedaço importante de mim.

Senti um vazio... Onde a mulher? Onde ficou? Onde a perdi de mim?

Latente o desejo... Latentes as fantasias... Latente a vontade de ser.

Porque a aprisionei? Ou será que simplesmente a esqueci? Talvez desaprendi? Só sei que a desencontrei!

Ela grita querendo viver. Eu finjo não ouvir ou entender.

Onde está minha Cigarra? Estou sob o domínio da Formiga?

Armazenei os mais doces sentimentos. Armazenei os carinhos mais ternos. Armazenei o frisson dos sentidos. Armazenei os ditames do meu sexo. Armazenei desejos puros e impuros. Armazenei a vontade de dançar. Armazenei os sonhos de voar em fantasias.

A mulher era uma Formiga cansada da lida de trabalhar lembranças de amores. A mulher era uma Formiga cansada de construir obstáculos para evitar novos amores e dissabores. A mulher era Formiga que colecionava livros, discos, amigos e escritos para se aquecer no inverno da solidão.

A Cigarra queria espaço para o seu canto. Timidamente cantarolou uma melodia simples...

A Formiga se irritou!!! - Como pode cantar com tantas barreiras a serem ainda construídas?

Calou-se a Cigarra por mais um longo tempo.

Desesperadamente a Formiga escrevia e lia mais e mais. Esqueceu de ouvir suas músicas prediletas. Esqueceu de dançar suas músicas favoritas. Esqueceu de caminhar na praia ouvindo o som do mar. Pela primeira vez sua vida não tinha fundo musical.

Insistente a Cigarra ensaiou algumas notas de uma suave melodia.

A Formiga fingiu-se surda, mas no seu íntimo a música semeou inquietação. Fez levantamento de tudo que armazenara para o inverno. Surpreendeu-se com a qualidade e a quantidade: livros que levaria mil invernos para ler, cds que precisaria mil anos para ouvir, quadros e esculturas que precisaria mil estações para perceber em detalhes.

Lembrou-se dos amigos, dos lugares a serem descobertos e finalmente concluiu que não teria mil invernos para viver.

Dormiu Formiga, acordou Cigarra.

Vestiu sua pele de sol. Enfeitou de estrelas seu sorriso. Perfumou-se com o aroma das poesias que amava. Adoçou com o mel das fantasias sua voz. Usou as jóias dos sentimentos mais doces. Calçou-se de coragem. Usando a esperança como ferramenta, cortou todas as correntes. Armou-se de alegria e derrubou os muros racionalmente construídos.

De Formiga fez-se Cigarra.

Cigarra, libertou a mulher.

Mulher Cigarra, fez-se música, abriu o canto e foi cigarrear.







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