É uma estranha composição de elefante com cambaxirra.
É uma pata pesada de animal que de repente se torna pluma colorida e meiga.
Uma desajeitada massa de sentimentos buscando a forma fugidia e flébil de uma bailarina.
É um caminhão de flores despejadas como esterco pelo basculante, na desproporção entre
o que o homem quer dar de uma vez e a amada pode receber.
É o mais desastrado dos hábeis; é um oculista com instrumentos de ferreiro;
um poeta com beijo de gente; um estivador de ternuras no bê-á-bá; um maestro
de machambombas; um maçarico de violetas.
É um ser em suaves prestações. Ele entra logo em estado de "tudo de uma vez".
Na alegria, ele é parto de baleia; explosão de pedreira; cheia de rio; deixa comigo;
sou mais eu; tá comigo, tá com Deus; mais um campeão de audiência; xerife valente;
salvação da lavoura; pai da pátria; rei do Universo.
Na tristeza é violoncelo solo; biscoito mofado; chuchu de gaveta; todo cinza;
guarda-noturno do inferno; turrão; medroso; lobo em uivos; lago em lodos; lírio no vinagre.
Na incerteza é criança carente; vulcão em lava; assaltante frio; paranóico;
turrão; teimoso; espião; insone; fabricante de flores; executivo de esperanças;
bombeiro piromaníaco.
É um ser em estado de comboio; fica comprido, anda temporariamente nos trilhos da
mulher amada, obedece à locomotiva, viaja sem guarda-freios, movido a carvão.
É mais cachorro dedicado do que gato independente; mais cavalo valente do que
serpente tenaz; mais aluno que mestre; mais dragão que águia;
mais hipopótamo que garça.
Sim, há algo de pesado, de extenso, de cansado, de sofrido, de desordenado,
de texto sem revisão, de grandeza infinita, de pureza de fonte e de submissão
não declarada, no homem apaixonado.
É um ser em estado de confissão; de entrega; de mania (já acorda assobiando o Bolero de Ravel),
dá bananas pro patrão; perde o emprego; não troca de meia.
É o mais transparente dos seres opacos, o mais boboca dos inteligentes. Incapaz de
juntar dez palavras, sai versejando sem parar.
Enfim, o homem apaixonado é apenas o rapsodo emocionado das próprias dissonâncias.
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Sonia Soares Copyright © 2000
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