Sonia Soares




"...E todo mundo está a espera deste amor fantasia, com gosto de Disney, maçã verde e cereja (ah... eu adoro cereja), ou com gosto de lágrimas que serão secadas com os lábios, ou com os olhos aflanelados de quem tem paixão.

... E todo mundo quer este amor-estrela, que vai povoar sonhos, encher nossas cabeças de pó de pirilimpimpim, mas que também vai descer à terra para descascar cebolas, lavar pratos, fazer compras no supermercado e dar xarope na hora da tosse...

Todo mundo quer e pouca gente tem.

Todo mundo procura, pouca gente acha... e às vezes, quando acha, joga no lixo na primeira esquina.

Só porque correu do trabalho que pensou que ia dar comprar terra, adubar e regar para fazer crescer.

Só porque ficou com preguiça de ter que ouvir blá-blá-blás, ou discutir para saber o caminho a tomar para dar voltas, sem dar tantas voltas... ou para saber que música escolher para ser dos dois, para olhar nos olhos do(a) amado(a) e ver os seus refletidos, pulando como os peixes para fora d'água... Só porque receou ter um elevador na barriga, bateria de escola de samba no coração.

Porque não quis comprar champanhe no momento em que o corpo do outro desejava ser taça e não quis subir na montanha russa e sacolejar no espaço... Porque não se aventurou a experimentar um prazer maior do que os que já teve, com medo de perdê-lo e não se acostumar com pouco... Porque não quis tentar ser feliz, só porque dizem que a felicidade dura pouco...

E a gente se acostuma com o que aparece no lugar do amor-maior, mesmo porque este aí não dá em árvore.

Engolimos sapos que nunca vão virar gente, muito menos príncipes e princesas, só porque dá trabalho de revirar o brejo ou procurar o pé da Cinderela, para enfiar o sapato velho que temos guardado há tanto tempo, ou para entender que o mundo é uma grande lagoa cheia de sapos coaxando fora do tom e há que se ter ouvido para escutar uma nota certa.

Para encontrar o(a) tal namorado(a) temos que perder o pavor de parecer ridículos, de falar sozinhos, de rir por nada, de escrever versos doidos e textos sem pé nem cabeça, de fazer papel de criança, de louco, de bem-te-vi, de sonhador... De correr riscos, sair da rotina, dar cambalhotas e apanhar beijos no pé...

Temos que ser solidários, infantis, amadurecidos, saber andar na corda bamba, tocar bumbo, ainda que fora do ritmo, dar flores, falar besteiras, entender coisas sérias e, sobretudo, não ter medo de viver."


(Sonia Soares)




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