Descobri que sou uma mulher de entardeceres.
Sim, pertenço àqueles entardeceres que vão,
aos poucos, criando e exibindo toda uma gama de
tonalidades violáceas, róseas e douradas.
Daqueles entardeceres encantados, momentos de suspensão,
onde o tempo pára por alguns segundos e os céus não mais
ostentam o brilho do dia nem o veludo escuro da noite.
Ah! Momento mágico em que o sentir fica intraduzível
e no qual qualquer palavra soa supérflua.
Admiro as mulheres práticas que se levantam junto com o sol,
que fazem com as próprias mãos os aromas e sabores do desjejum
e emanam aquele frescor e aquela energia matinal, clara e radiante...
São elas as que constroem o mundo, as que cuidam das coisas práticas,
criam crianças saudáveis e mantém a vida andando sobre os trilhos.
Não sou uma delas.
Raramente vejo a Lua ceder seu lugar ao Sol durante a alvorada.
Incluo-me no rol das que não sabem definir o misto de nostalgia
e poesia que permeia cada pôr-do-sol...
Estou no rol das que sorvem com a alma as tintas fantásticas do poente.
Sou uma mulher de entardeceres...
Gosto daquele momento do dia que não pertence mais ao Sol nem
pertence ainda à Lua, que não ostenta luzes douradas nem prenuncia
estrelas. Gosto daquele momento que pertence apenas aos que conseguem
identificar com a alma a luminosidade exata do momento.
Sou de uma raça que, se não constrói com as próprias mãos e
suor o mundo físico, o mantém sonhando o suficiente para que não
enlouqueça. Sou daquela espécie de gente que não é sombra nem luz,
mas que consegue ter todas as cores do entardecer no olhar.
Sou uma mulher que entardece longe do fogo sufocante e urgente
da luz solar, aguardando serenamente que a prata do luar venha
lhe tocar a pele sem urgências, sem exigências, deixando escorrer
suavemente sobre o corpo e sobre a alma cada matiz da luz mortiça
que finda o dia, como uma amante que ama com vagar, profundidade e
delicadeza o amante que acaricia...
Se a sua alma também voa pelos entardeceres e também viaja
pelas luzes difusas do fim do dia, sabe do que eu estou falando.
Se o seu sentir é uma mistura de nostalgia e euforia, de alegria e
agonia, e se farta com as cores da quase noite,
você também é gente do entardecer.
Então, na próxima vez em que estiver imerso na contemplação das luzes
e cores do fim do dia, amplie o seu sentir e faça contato com os
seus iguais, com os outros seres do entardecer...
Com certeza, você me encontrará entre eles, admirando e vivendo
intensamente de corpo e alma o momento mágico do pôr-do-sol.
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Sonia Soares Copyright © 2000
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