©Sonia Soares©



Toco a tua boca.
Com um dedo toco o contorno da tua boca,
vou desenhando essa boca
como se estivesse saindo da minha mão,
como se pela primeira vez a tua boca
se entreabrisse e basta-me os olhos
para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez,
a boca que desejo,
a boca que minha mão escolheu e
te desenha no rosto,
uma boca eleita entre todas,
com soberana liberdade eleita por mim
para desenhá-la com minha mão em
teu rosto e que por um acaso,
que não procuro compreender,
coincide exatamente com a tua boca
que sorri debaixo daquela
que a minha mão desenha.
Me olhas, de perto me olhas,
cada vez mais de perto e,
então, brincamos de cíclope,
olhamo-nos cada vez mais de perto
e nossos olhos se tornam maiores,
se aproximam entre si,
sobrepõem-se e os cíclopes se olham,
respirando confundidos,
as bocas encontram-se e
lutam debilmente,
mordendo-se com os lábios,
apoiando ligeiramente a língua nos dentes,
brincando nas cavernas onde o ar pesado
vai e vem com um perfume antigo
e um grande silêncio.
Então, as minhas mãos
procuram afogar-se nos teus cabelos,
acariciar lentamente a profundidade do
teu cabelo enquanto nos beijamos
como se tivessemos a boca cheia
de flores ou de peixes, de
movimentos vivos, de fragrância obscura.
E se nos mordemos, a dor é doce;
e se nos afogamos num breve e terrível
absorver simultâneo de fôlego,
essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e
um só sabor de fruta madura,
e eu te sinto tremular contra mim
como uma lua na água.


(Julio Cortazar)


(Tradução de Sonia Soares)






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